15/10/2015
Dicas para atravessar o deserto econômico
José Roberto Mendonça de Barros, economista e ex-secretário de política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, chama a atual conjuntura econômica de “deserto”
Lubgrax

A atual crise é mais grave que as anteriores?

José Roberto Mendonça de Barros – A gravidade da situação atual decorre da existência simultânea de problemas internacionais (China), grave crise política, governo frágil que não tem clareza do que vai fazer, desequilíbrio macroeconômico clássico (queda do PIB e investimento), desarranjo fiscal, inflação alta e juros siderais, desequilíbrio externo. Grandes problemas setoriais (petróleo, energia, construção civil), setor automotivo e bens de capital. O que é particularmente difícil é essa combinação de elementos relativamente graves neste momento e em setores-chave da economia. É uma crise verdadeira, profunda e relativamente ampla.

Quais as perspectivas para o Brasil sair da crise?

José Roberto Mendonça de Barros – Vamos sair dessa crise lá na frente. O Brasil perdeu temporariamente a condição de crescer, mas não estamos no caminho da Venezuela nem da Argentina, de perda da viabilidade ao longo do tempo. No 1º trimestre de 2015 a economia brasileira caiu em degraus. Isso não é normal. Normal é desacelerar lentamente ou aumentar lentamente. Nos primeiros dois meses do ano o setor automotivo viu queda de 23% na venda de veículos, 50% na venda de caminhões e 40% na venda de máquinas agrícolas. Esse tombo não é normal.  Na minha avaliação esse tombo é filho direto da Operação Lava Jato e da Petrobras. Ao mesmo tempo, esta situação política está cada vez mais insustentável. Algo deve acontecer até as eleições municipais de 2016. Dificilmente o governo se mantenha até 2018.

O desmonte na Petrobras teria influenciado toda a economia?

José Roberto Mendonça de Barros – A Petrobras, independentemente da Operação Lava Jato, já estaria sofrendo de qualquer maneira um forte impacto, com o resultado da queda dos preços do petróleo a US$ 40. Mas por causa da Lava Jato a cadeia de produção está parada há quase um ano. Lembre que a  Petrobras suspendeu em setembro, outubro e novembro de 2014 o pagamento de seus fornecedores. Em janeiro deste ano os fornecedores da construção civil fecharam os canteiros de obras. Os subcontratados da Petrobras também fecharam e deu-se uma forte reação em cadeia.

Quando se desmonta um canteiro de obras, há um desmonte do país, pois a maioria desses trabalhadores vem das mais diversas partes do Brasil, o desemprego deles desmonta as famílias e suas comunidades. O desmonte começa no canteiro de obras e termina desmontando a pensão de uma cidadezinha. Uma devastação total. Sem receber, os fornecedores da Petrobras passaram a correr um risco grande e isso passou para o sistema bancário, que trancou os empréstimos e elevou o spread. A piora do crédito gerou a piora nos balanços das empresas no 1º semestre. Foi um alívio a Petrobras publicar o balanço. Hoje a Petrobras está sendo efetivamente executada por seu diretor financeiro, o que indica a seriedade do problema.

Qual é a sua previsão de melhora para a economia brasileira?

José Roberto Mendonça de Barros – O risco de perda do grau de investimento já está precificado no mercado internacional. Daqui para frente a taxa de desemprego vai puxar para perto de 10%. As famílias vão consumir menos, o governo vai gastar um pouco menos e haverá um tombo nos investimentos. Há previsão de uma melhora no último trimestre de 2016. Até lá teremos uma situação difícil. Em 2016, a queda da inflação e a estabilização do câmbio permitirão cortar novamente os juros e abrir espaço para uma recuperação. O melhor cenário é volta ao crescimento em 2017 sem grandes animações porque o investimento será modesto. As exportações vão aumentar e as importações vão cair.

O senhor acredita de fato numa queda dos juros?

José Roberto Mendonça de Barros – A inflação de 2015 está caindo pela queda de consumo de energia elétrica. E isso tem a ver com a recessão, e não com as políticas públicas. Isso abre a chance para o Banco Central baixar a taxa básica de juros, a Selic, que deveria baixar ainda este ano pelo menos em 3 pontos percentuais. O juro está tão alto que hoje gastamos mais em juros em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do que a Grécia, que deve mais que o Brasil.

Quais as perspectivas para as empresas?

José Roberto Mendonça de Barros – Nem todas as empresas devem conseguir atravessar esse deserto econômico de 2015/2016. Estão em vantagem aquelas com balanços fortes, boa produtividade e recursos de capital humano. A questão é como vamos nos posicionar, não só como vamos reagir.

O que deve acontecer com o câmbio?

José Roberto Mendonça de Barros – Não temos dúvida de que o real frente aos nossos parceiros comerciais vai desvalorizar. Isso veio para ficar. Quem pode tem que tentar exportar. A cada mês há mais setores da indústria no vermelho. Se olharmos só o cenário econômico, e não o político, podemos ter a estabilização do câmbio. No cenário macroeconômico teremos dois anos ruins (2015 e 2016), a inflação vai cair, o setor externo vai se ajustar rapidamente e nós aqui teremos o nosso miolo fiscal e um problema grande a resolver.

O ajuste fiscal vai funcionar?

José Roberto Mendonça de Barros – Estamos fazendo um ajuste que leva a baixar a inflação e o câmbio flutuante melhora as exportações. Dentro desse cenário ruim isso mostra um fundamento positivo: se melhorarmos um pouco as nossas contas públicas, voltamos a crescer. Se melhorar a parte fiscal do país, um juro mais baixo, um câmbio estabilizado e mais exportações, voltamos a crescer.

O que mais incomoda no atual do governo?

José Roberto Mendonça de Barros – Mais do que o aspecto gastador do Estado, o que mais me incomoda na presidente Dilma Rousseff é a visão de mundo de que ela vai regular tudo. Se não melhorarmos o parte fiscal e regulatória não voltamos a crescer. Por exemplo, o grupo no poder tentou fazer uma economia fechada tentando proteger a indústria nacional e a destruiu. Veja o caso da crise automotiva. Temos 5 milhões de capacidade produtiva, esse ano não se vende mais de que 2,7 milhões de veículos. Sobram carros, faltam consumidores. Essa situação é filha direta do Inovar Auto, projeto de altas doses de proteção que acidentalmente estourou as quatro grandes montadoras. Elas estavam morrendo de medo dos carros chineses e a concorrência com as plantas antigas delas. Os 70% de IPI e 35% de imposto de importação trituraram os chineses. Só que as montadoras japonesas e coreanas que já estavam aqui também tinham plantas mais novas e agora estão triturando a margem de lucro das quatro montadoras mais tradicionais. Nunca essa indústria teve tanto problema quanto agora.

Outra aposta que essa turma perdeu é que o Estado concentra tudo. O investimento direto, a regulação e o financiamento barato do BNDES naufragaram os tesouros federal e estadual. O novo modelo vai ter que rever tudo isso. É para isso que estamos caminhando. Dilma estará entre nós até as eleições de 2016, o resto ninguém sabe o que vai acontecer.

A renda familiar será afetada, o consumidor se retrai, mas isso não quer dizer que o consumo de tudo vai cair. Por exemplo, em perfumaria e beleza há uma tendência de autoindulgência nessas épocas de deserto.

Quais as recomendações para as empresas neste cenário atual?

José Roberto Mendonça de Barros – As empresas têm que agir para defender a sua liquidez. Apenas projetos muito bons e rentáveis são factíveis. Empresas com balanços fortes, boa produtividade e recursos de capital humano têm vantagem sobre as demais. Ter trabalhadores bem treinados é vital para manter a produtividade, especialmente pela automação dos processos. Por agora é importante focar na redução de custos e no alongamento da dívida, buscar as melhores práticas e inovações, aumentar clientes externos, e a internacionalização das economias. Aproveitar as oportunidades de nacionalização de produtos e componentes, caminhar para melhores práticas, sistemas integrados e de inteligência de formação de mercados. Diminuir a dependência de favores fiscais e crédito subsidiado no novo modelo de negócios. Em muitos casos, os incentivos regionais negociados no passado não estão sendo pagos. Não há espaço para esperar algo do governo. Os tesouros na prática quebraram. Quem ficar no mesmo tipo de operação do passado vai naufragar. É preciso ter visão estratégica para ser capaz de lidar com novo modelo, compartilhar a evolução da área de negócios no mundo global. Tenham em mente que na nova fase sempre vai haver consolidação de negócios, ou seja, compra e venda de empresas. Muitas vão sumir, outras vão surgir.

 O que as empresas podem esperar do pós-crise?

José Roberto Mendonça de Barros – Muita coisa está mudando, a demografia, a geografia da produção, a demanda cada vez mais fragmentada de produtos e serviços. Por isso as estratégias corporativas devem ser regionalizadas. Responder passivamente é a receita para ficar vulnerável e morrer de sede no deserto. A necessidade é a mãe da invenção. Tem gente fora do Brasil querendo entrar aqui. Todos os setores econômicos relevantes estão num processo inevitável de mudança. As empresas têm um deserto a atravessar, cheio de sobressaltos. O desafio não é só atravessar e ficar vivo. É observar que quando tiver a retomada do crescimento tudo estará diferente.

Significa que o cenário pós-crise será atípico?

José Roberto Mendonça de Barros – Há uma ameaça de vida e oportunidade sobre todos. Nestes momentos, morre o velho e nasce o novo. Muita gente vai ficar no meio do caminho. Quando voltarmos a crescer, o mercado em que atuamos, seja de óleos e lubrificantes, seja de aviação, mineração, etc, será diferente. Temos que ter a mente aberta, pensar fora da caixa. Nem toda a surpresa é negativa. Não é só atravessar o deserto 2015/2016 nem sobreviver a ele. A volta ao crescimento será diferente do que já foi passado. O cenário político e econômico será outro.

Quer dizer que teremos um rearranjo do mercado? Fusões e aquisições em vista?

José Roberto Mendonça de Barros – Em crises desta natureza a consolidação de negócios e setores é inevitável. Em parte isso ocorre porque muitas empresas se tornam ilíquidas, o que permite a aquisição de bons ativos a bons preços. A consolidação também ocorre porque nesses momentos acabam ocorrendo mudanças tecnológicas e a entrada de novos players. A força do balanço e o mercado de capitais são os instrumentos que viabilizam este processo. Dadas as dificuldades financeiras dos governos nesta transição de modelo, é importante diminuir a dependência de favores fiscais e crédito subsidiado, em todos os níveis da administração, no modelo de negócio.

Qual o cenário doméstico em 2016?

José Roberto Mendonça de Barros – Europa e EUA estão crescendo, o que melhora as chances comerciais com estes parceiros. O que nos incomoda no Brasil: os EUA vão aumentar os juros, o que aumenta o custo de capital da empresa brasileira, haverá mais pressão para desvalorizar o real. O pior cenário para a cadeia de óleos e lubrificantes é a dúvida sobre emergentes como a China, cujos impactos em cima de commodities nos machucam pelo preço do petróleo, dos minérios e metais. É preciso alterar a pauta de exportação do Brasil, sair da commodity pura para produtos mais industrializados.

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